Entre os dias 3 e 6 de julho, a Cinemateca Brasileira apresenta a mostra “Mestres do Cinema Paulista – Parte 1: Ozualdo Candeias e Jean Garrett”, que exibirá filmes raros digitalizados em 4K. O projeto resgata obras fundamentais do cinema brasileiro, preservando e revitalizando esse importante patrimônio audiovisual. A entrada é gratuita, e os ingressos serão distribuídos uma hora antes de cada sessão.
A programação de abertura, no dia 3/7, traz o filme “Mulher, Mulher” (1979, Jean Garrett), sucesso de bilheteria estrelado pela icônica Helena Ramos, uma das atrizes mais emblemáticas do cinema da Boca do Lixo. Após a projeção, Helena Ramos e o idealizador do projeto, Eugenio Puppo, participam de um debate com o crítico e pesquisador Gabriel Carneiro, autor de um ensaio sobre o projeto. A conversa abordará não apenas a importância da preservação cinematográfica e o legado de Ozualdo Candeias (1922-2007) e Jean Garrett (1946-1996), mas também trará histórias fascinantes dos bastidores – revelando curiosidades sobre as produções da época e o cotidiano pulsante da Boca do Lixo, polo efervescente da produção audiovisual paulistana entre as décadas de 1960 e 1980.
O projeto inclui a digitalização dos dois primeiros curtas-metragens de Ozualdo Candeias – “Tambaú” (1955) e “Polícia Feminina” (1960) – e de três longas de Jean Garrett – “Excitação” (1977), “Noite em Chamas” (1978) e “Mulher, Mulher” (1979) –, além dos trailers originais dos longas. As obras foram digitalizadas pela Cinemateca Brasileira, com pós-produção da DOT Cine, garantindo que os filmes cheguem ao público com alta qualidade técnica.
Na mostra, também serão exibidos outros três curtas-metragens de Candeias, fundamentais para a contextualização da produção cinematográfica realizada na Boca do Lixo, em São Paulo: “Uma rua chamada Triumpho 1969/1970” (1971), “Uma rua chamada Triumpho 1970/1971” (1971) e “Bocadolixocinema” (1976).
Considerada berço de respeitados diretores do cinema nacional, como Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, José Mojica Marins, Ody Fraga, Cláudio Cunha, Walter Hugo Khouri, Oswaldo de Oliveira e Fauzi Mansur, a Boca do Lixo também teve Candeias e Garrett como dois de seus grandes expoentes.
Ozualdo Candeias
Ozualdo Ribeiro Candeias foi um dos precursores do cinema de autor no Brasil e do movimento que se tornou conhecido como Cinema Marginal, além de ser um dos mais criativos cineastas que o país já revelou. Seu longa-metragem de estreia, “A Margem” (1967), é considerado até hoje um marco da filmografia nacional.
Diretor, roteirista, fotógrafo, ator e montador, não foi apenas um dos primeiros cineastas a se instalar na região da Boca do Lixo, como também foi seu defensor e principal historiador. Por anos, documentou (com fotografias e filmes) o cinema produzido ali, em suas particularidades e personagens, com destaque para “Meu nome é… Tonho” (1969), “A herança” (1971) e “Zezero” (1974), para o curta “Bocadolixocinema” (1976) e para o livro “Uma rua chamada Triumpho” (2001).
Jean Garrett
Jean Garrett foi um importante cineasta de São Paulo. Diretor, roteirista, produtor e ator, nascido em Portugal, chegou ao Brasil em 1966 e logo passou a integrar a equipe de diretores da Boca do Lixo. Estreou na direção com “A ilha do desejo” (1975), com grande sucesso de público, o que lhe permitiu uma carreira intensa e exitosa até 1986.
Com seus projetos autorais, foi fundamental para o desenvolvimento do contexto de produção da Boca do Lixo, desenvolvendo um estilo próprio, alicerçando em obras como “Excitação” (1977), “Noite em Chamas” (1978) e “Mulher, Mulher” (1979) as principais bases estéticas e formais de sua obra, como a conformação do melodrama enquanto gênero central, uma atmosfera fantástica (na qual a realidade é sempre posta em dúvida) e a predileção por uma tônica intimista e psicológica na encenação, com certo verniz intelectual.
Em sua obra, Garrett privilegiava a investigação da sexualidade e do ser mulher no Brasil daquele período, o que torna seus filmes particularmente surpreendentes nos dias atuais. Frequentemente caracterizado como um “artesão”, o cineasta manteve o caráter autoral de seu trabalho mesmo em obras de apelo comercial, como “A mulher que inventou o amor” (1980), “A força dos sentidos” (1980) e “O fotógrafo” (1981).
Garrett apostou no melodrama como gênero central e em atmosferas fantásticas, em que a realidade é sempre posta em dúvida. Há, ainda, uma tônica intimista e psicológica na encenação, por vezes moldada pelo cinema de Walter Hugo Khouri. Daí a escolha de profissionais como Ody Fraga, Carlos Reichenbach, Inácio Araujo e João Silvério Trevisan no roteiro. Garrett é um dos poucos cineastas brasileiros que dirigiu quatro longas-metragens que atingiram a marca de 1 milhão de espectadores, sendo “Mulher, Mulher” (1979) sua produção de maior sucesso de bilheteria, alcançando 1,5 milhão de espectadores.
Confira a programação completa da mostra “Mestres do Cinema Paulista – Parte 1: Ozualdo Candeias e Jean Garrett” e mais informações em https://cinemateca.org.br/series/mestres-do-cinema-paulista-parte-1/.