Por Luna D’Alama
O 31º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários promove neste domingo (19), às 15h, em parceria com a Spcine, uma masterclass com o cineasta, roteirista, fotógrafo, produtor e sócio emérito da ABC Jorge Bodanzky, na sala Lima Barreto do Centro Cultural São Paulo (CCSP). A entrada é gratuita, com distribuição de senhas uma horas antes e sujeita à lotação do espaço.
Na última quinta-feira (16), a programação do festival exibiu no CCSP (Rua Vergueiro, 1.000) Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky (2025), o mais novo filme dirigido pelo cineasta, em parceria com Liliane Maia.
Há meio século, Bodanzky e Orlando Senna lançavam Iracema – Uma Transa Amazônica (1974). Foi seu longa de estreia, considerado um marco no cinema documental. Filho de austríacos que migraram para o Brasil na década de 1930, Bodanzky sempre tratou de questões sociais e ambientais em seus filmes. “Abordar essas temáticas acabou se tornando um complemento do que eu faço”, destaca o também membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, com direito a voto desde 2023 na categoria de Melhor Documentário do Oscar.
Bodanzky estudou arquitetura na Universidade de Brasília (UnB), foi professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e cinegrafista de correspondentes de emissoras de TVs alemãs no Brasil, formando parceria principalmente com Karl Brugger (1942-1984). Além disso, cobriu a revolução estudantil na Europa, que eclodiria no Maio de 1968, e, de volta ao Brasil, viajou por diversas estradas de terra acompanhado de sua Super-8.
Nos últimos anos, o cineasta lançou a série Transamazônica: Uma Estrada para o Passado (2021) – que revisita a história da rodovia e observa sua atual situação –, em parceria com Fabiano Maciel, para o canal de streaming HBO Max; e os documentários Amazônia, a Nova Minamata? (2022) e Um olhar inquieto, rodado no Amazonas e no Mato Grosso.

Inquieto por natureza
O documentário Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky (2025) resgata um registro feito em 1973, quando, a convite de uma TV alemã, Bodanzky documentou a construção da Universidade de Humboldt, no Mato Grosso, em plena ditadura militar. Num sobrevoo pela região, em meio à floresta, surgiu uma imagem intrigante: uma grande maloca com indígenas tentando atingir o avião com flechas.
Esse foi o ponto de partida para o cineasta revisitar, sem roteiro e meio século depois, sua relação histórica com a Amazônia e a história por trás dessa imagem e desses indígenas, numa abordagem intimista.
O registro foi recuperado pelo Instituto Moreira Salles (IMS), e o novo documentário leva o cineasta de volta a Aripuanã (MT), conectando passado e presente, explorando a trajetória do diretor e os mistérios da Amazônia a partir de inúmeros rolos de Super-8 registrados e guardados por Bodanzky.
Um Olhar Inquieto integrou a Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens do É Tudo Verdade em 2025 e também circulou por festivais como CINEOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto-MG), Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte e pela COP30, em Belém (PA).
“É um filme autobiográfico que trata de imagens que surgiram no meio dos meus arquivos digitalizados pelo IMS, num sobrevoo por uma aldeia indígena que nunca havia tido contato com brancos. Descubro, ao longo do processo, que esses indígenas pertencem à etnia cinta-larga e fico sabendo o que aconteceu com eles desde então. É um filme autobiográfico em que também conto minha história, meu processo de fazer filmes”, revela.
O documentário diz que a câmera é como uma extensão da memória de Bodanzky, uma maneira de guardar o tempo para si. “Como um bloco de notas, eu filmo.”
Para o cineasta, o cinema documental também tem a capacidade de transmitir conhecimentos e provocar discussões sobre problemas atuais da sociedade. “É um forte instrumento de ativismo, porque só assistir a um filme já não é suficiente. Precisamos debater nossas pautas sociais e ambientais”, aponta.
Amazônia e Japão, conectados pelo mercúrio
O documentário anterior de Bodanzky, Amazônia, a nova Minamata?” (2022), mostra a saga do povo Munduruku frente ao impacto da contaminação de mercúrio no ambiente (causada pelo garimpo ilegal de ouro) e na saúde dos povos da Amazônia. A produção é de Nuno Godolphim e João Roni Garcia, da Ocean Films, com coprodução da Globo Filmes e GloboNews.
“Nesse filme, comparo a situação indígena com o que ocorreu, na década de 1950, na bacia de Minamata, no Japão. Uma indústria química derramou mercúrio numa vila de pescadores e, a partir da contaminação da água, dos peixes e frutos do mar, surgiram problemas neurológicos terríveis e irreversíveis na população. Esse é considerado o primeiro grande desastre ecológico do mundo – e eu mostro registros históricos dele no documentário”, resume.
Após décadas de luta, essa baía no Japão foi despoluída e já é possível pescar. As vítimas receberam indenização, mas as consequências dessa catástrofe ambiental permanecem. “Meu documentário é um alerta para que essa mesma tragédia não ocorra na Amazônia, tanto na parte brasileira quanto em mais oito países da América do Sul”, adverte Bodanzky. Segundo ele, os indígenas são os primeiros a sofrer as consequências da destruição de biomas e territórios ancestrais, por isso o audiovisual indígena tem um caráter ativista tão forte.

O interesse do diretor pela contaminação por mercúrio começou em 2016, quando ele trabalhava na série Transamazônica: Uma estrada para o passado (2021), da HBO. Em reuniões com caciques e outras lideranças, em meio ao projeto de construção de uma hidrelétrica, foi discutido que o rio Tapajós estava contaminado por mercúrio proveniente de mineração clandestina. Bodanzky então acompanhou os médicos Erik Jennings (neurologista) e Paulo Basta (da Fundação Oswaldo Cruz-Fiocruz), que vinham desconfiando do envenenamento gradual de crianças e adultos, inclusive com uma demanda acima do normal na região por cadeiras de rodas.
“O garimpo ilegal em áreas protegidas avançou muito nos últimos anos. Em decorrência disso, têm aparecido sintomas e problemas neurológicos nas pessoas indígenas, como dificuldade de locomoção, tremores, deficiência intelectual. Muitas vezes, esses sinais levam décadas para serem percebidos, são consequências de longo prazo, de uma exposição cumulativa ao mercúrio. Então, muitos não acreditam que estejam contaminados – o que ocorre também das mães para os fetos”, explica Bodanzsky.