Confira o debate sobre “Continente” realizado pela Sessão ABC na Cinemateca Brasileira

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Debate de “Continente” na Sessão ABC do dia 21 de fevereiro de 2026. Foto: Adriana Vichi

Por Luna D’Alama

A primeira Sessão ABC de 2026 exibiu, gratuitamente, o longa-metragem nacional “Continente” (2024), dirigido e roteirizado por Davi Pretto, no dia 21 de fevereiro (sábado), às 15h, na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Após a projeção do longa, aconteceu um debate com a participação do diretor e roteirista (online), da diretora de fotografia Luciana Baseggio, DAFB, ABC; do foquista Juliano Possebon e da colorista Julia Bisilliat (presencialmente). A mediação ficou por conta do diretor de fotografia e associado Cesar Ishikawa, ABC.

A conversa teve acessibilidade em Libras e foi transmitida ao vivo pelo canal da Cinemateca no YouTube. Veja o bate-papo na íntegra:

“Continente” foi rodado ao longo de seis semanas e meia, em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, incluindo o vilarejo de Torrinhas, a cerca de 50 km do município de Pinheiro Machado. Segundo o diretor e roteirista Davi Pretto, o filme (seu terceiro longa, após “Castanha”, de 2014, e “Rifle”, de 2016) é uma coprodução entre Brasil, Argentina e França, com investimento também da Alemanha (Berlinale). O projeto começou a ser gestado em 2018, e as gravações ocorreram em 2022.

“Esse filme difere dos meus anteriores, foi muito maior que os outros. Teve uma janela de quatro anos de desenvolvimento, com uma pandemia no meio. Tudo isso fala muito sobre o próprio processo do filme. A correção de cor, por exemplo, foi feita primeiro na França e depois no Brasil. Tentei propor para a diretora de fotografia, Luciana Baseggio, e para toda a equipe coisas – como liberdade de criação e liberdade no set, com improvisações dos atores e da própria câmera – que eu já vinha fazendo em trabalhos menores. Isso marcou o processo e o resultado, num filme de gênero com cerca de 50 pessoas na equipe, incluindo profissionais da Argentina e da França”, lembra.

Ainda de acordo com o cineasta, que antes de fazer cinema era músico (daí seu gosto pela improvisação), ele procurou instigar a equipe, a todo momento, a propor coisas novas e diferentes. “Tem planos abertos, mas também muitos planos fechados, quebras de eixo, o espectador perde um pouco a contextualização. E isso cria uma espécie de desconforto desde o início do filme, é uma ideia que me guiou. Na minha opinião, a decupagem e a montagem são os principais instrumentos para causar esse desconforto”, avalia.

Segundo Luciana Baseggio, DAFB, ABC, em várias cenas, a câmera também era um personagem, com muitos suportes utilizados (em cima de um cavalo, de um carro, na mão, em estrutura de roda pneumática, travelling etc). “A gente ficava sempre tentando achar a melhor forma de encaixar a câmera nas cenas. Teve uma vez em que subi num cavalo para gravar e funcionou bem. Esse filme teve esse processo muito legal de encontrar as cenas, a gente não terminava até sentir que a vibração de cada uma tinha acontecido. Foi um set muito sobre atuação e construção dos personagens, é um trabalho primoroso. E a câmera tem uma linguagem muito interessante”, destaca.

A diretora de fotografia também contou que o set ficou o máximo possível livre de refletores, luzes e tripés, para dar uma maior liberdade aos atores. Ela teve dois meses de pré-produção e estudou sobre cinema de fluxo para entender melhor o ritmo do filme e os enquadramentos. “É um universo que parece estranho à primeira vista, mas que diz muito sobre a nossa realidade, sobre o mundo em que a gente vive. A cor é muito importante para o filme, tem todo um significado, metáforas, símbolos, alegorias e hipóteses. Nesse sentido, a fotografia buscou contrapontos: uma luz suave e mais naturalista nas diurnas, e a lua da lua, da cidade à noite, mais dura e mais suja iluminando o vilarejo. Cores primárias, como azul, vermelho e amarelo, além do verde, predominam em ‘Continente'”, explica.

Já o primeiro assistente de câmera/foquista Juliano Possebon, falou dos desafios das cenas noturnas, de trabalhar com muita câmera na mão, freestyle, o diafragma todo aberto e pouca profundidade de campo – sem perder o foco. “Em termos de processo, também aprendi muito. A gente tinha, no início de cada dia, uma passagem com o diretor, a diretora de fotografia, o elenco, o gaffer e o maquinista para falar sobre como eles sentiam cada cena acontecendo. Após essa construção coletiva, de entender o que iria ocorrer em seguida, a Lu ia trabalhar na luz e a gente resolvia outras questões técnicas. Era um jazz, principalmente nos momentos mais tensos, de câmera na mão”, resume. Possebon destacou, ainda, as locações do filme e as viagens que o cinema já proporcionou em sua carreira.

A colorista Julia Bisilliat também falou durante o debate. Segundo ela, o último processo da fotografia em um filme é a correção de cor. Em “Continente”, essa etapa da pós-produção começou na França e foi finalizada no Brasil. “Já recebi o filme montado e, em conjunto com o diretor e a fotógrafa, a gente trabalhou no que já tinha sido pensado desde o início. Nesse longa, especificamente, há uma questão muito forte das cores: o contraponto do vermelho (do sangue, sobre o qual é a história) com o azul das cenas noturnas. O material chega ‘lavado’, então as cores dão vida às imagens e ajudam, visivelmente, no incômodo que causam as cenas e os planos fechados. Hoje em dia, com o digital, os filmes necessariamente têm que passar pela correção de cor”, pontua.

Segundo Luciana Baseggio, DAFB, ABC, a vegetação mais amarelada, “queimada” do sol, representando um ambiente inóspito, foi feita na fase de correção de cor. “E o sangue foi corrigido para um tom mais escuro, parecendo ferrugem”, acrescenta.

A seguir, confira fotos da Sessão ABC:

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Participantes presenciais do debate de “Continente” na Sessão ABC de 21 de fevereiro de 2026. Foto: Adriana Vichi

“Continente” foi um dos finalistas do Prêmio ABC 2025, na categoria Melhor Direção de Fotografia Longa-Metragem Ficção.

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Cena de “Continente” (2024), dirigido e roteirizado por Davi Pretto. Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

SINOPSE:

Depois de 15 anos morando no exterior, Amanda volta para casa com seu namorado francês Martin. Eles chegam à enorme fazenda da família, localizada num vilarejo isolado nas intermináveis planícies do Sul do Brasil. Lá, Amanda encontra o pai em coma e uma tensão cada vez maior entre os trabalhadores. A única médica no vilarejo próximo é Helô, uma mulher que renuncia a si mesma para tratar os habitantes da cidade. A iminente morte do dono da fazendo coloca Amanda, Martin e Helô no centro de um perturbador acordo entre o vilarejo e os donos da fazenda.

Ficha Técnica:

Direção: Davi Pretto
Roteiro: Davi Pretto, Igor Verde e Paola Wink
Produção Executiva: Paola Wink (Vulcana Cinema), Jessica Luz (Vulcana Cinema)
Coprodução: França e Argentina
Coprodutores: David Hurst (Dublin Films), Cecilia Salim (Murillo Cine), Georgina Baisch (Murillo Cine) e Barbara Francisco (Pasto)
Direção de Fotografia: Luciana Baseggio, DAFB, ABC
Foquista: Juliano Possebon
Direção de Arte: Bea Gerolin
Figurino: Samy Sill
Maquiagem: Juliane Senna
Montagem: Valeria Racioppi (SAE)
Colorista: Julia Bisilliat
Som direto: Marcos Lopes
Edição de Som: Tiago Bello
Mixagem: Leandro de Loredo e Facundo Gómez
Trilha Sonora Original: Rita Zart, Bruno Vargas e Carlos Ferreira
Supervisão de pós-produção: Daniel Dode
Elenco: Olivia Torres (Amanda), Ana Flavia Cavalcanti (Helô), Corentin Fila (Martin), Breno de Filippo (Ezequiel), Silvia Duarte (Maria).

A Sessão ABC é um evento realizado pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC) desde 2002, em parceria com a Cinemateca. Em 2025, o projeto exibiu cinco filmes nacionais: “O Sequestro do Voo 375” (2023), “Meu Nome É Gal” (2023), “Ainda Estou Aqui” (2024), “Oeste Outra Vez” (2024) e “Malu” (2024).

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Inti Briones DFP, ACC, ABC: Cada filme é uma jornada compartilhada
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